Todo ano, quando o carnaval termina, começa o debate: o carnaval está morrendo? Está se tornando muito comercial? Perdeu sua autenticidade? Essas perguntas são feitas há décadas — e o carnaval continua, transformado mas vivo. O que essas perguntas revelam é a centralidade do carnaval na imaginação brasileira — uma festa que o Brasil usa para pensar sobre si mesmo.
O carnaval como inversão
A interpretação clássica do carnaval, desenvolvida pelo antropólogo Roberto DaMatta nos anos 1970, o via como um momento de inversão da ordem social. O pobre se torna rei. O marginalizado ocupa o centro. As hierarquias cotidianas são suspensas, ainda que temporariamente. Os blocos de rua do Rio e de São Paulo são espaços onde corpos que não se encaixam nos padrões dominantes ocupam as ruas sem pedir licença, onde a mistura de classes, raças e identidades acontece de forma mais intensa do que em qualquer outro contexto social brasileiro.
O carnaval que não aparece nas câmeras
O carnaval que aparece nas transmissões de TV é uma fração do carnaval real. Nas periferias das grandes cidades, em cidades do interior, em comunidades quilombolas, em terreiros de candomblé, o carnaval acontece de formas que raramente chegam ao grande público. Esses carnavais periféricos têm uma vitalidade diferente — menos espetáculo, mais comunidade. O carnaval brasileiro é plural. E essa pluralidade é o que o torna tão difícil de matar.